sábado, 21 de fevereiro de 2015

Filosofia para Crianças e Jovens

Eugénio Oliveira – licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia de Braga-UCP, Professor e Formador de Educadores e Professores. Fundador da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática, tem desenvolvido, voluntariamente, um trabalho de promoção da ética e da filosofia em Portugal. Uma das áreas em que se tem destacado é o desenvolvimento da área da Filosofia para Crianças e Jovens em Portugal.


Para outras informações: http://comunidadeedp.pt/todosqueremosumbairromelhor/ideia/1116

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Curso de Filosofia participou no Grupo UNIJES – Ética das Profissões 2015

Nos dias 22 e 23 de Janeiro, teve lugar a reunião anual dos coordenadores dos Centros do Grupo UNIJES – Ética das Profissões, estrutura que congrega todas as Instituições de Ensino Superior da Companhia de Jesus em Espanha, a que a Faculdade de Filosofia de Braga está associada. A reunião deste ano decorreu no Campus de Sevilha da nova Universidade da Companhia de Jesus, Universidad Loyola Andaluzia (http://www.uloyola.es/), cuja actividade docente se iniciou há dois anos. Para além do Campus de Sevilha, a Universidade tem um outro em Córdoba.
A Faculdade de Filosofia de Braga participa nestas reuniões desde 2001, tendo sido responsável pela reunião anual de 2004, que decorreu nos dias 28 e 29 de Janeiro. Aproveitando a vinda a Braga de vários especialistas em Ética Empresarial, foi organizado na ocasião um Seminário Luso-Espanhol de Ética Empresarial subordinado ao tema: “Ética como Instrumento de Gestão”, cujas comunicações foram publicadas na Brotéria. Cristianismo e Cultura. 159(2004), fasc. 5.
O Grupo UNIJES – Ética das Profissões (na altura COCESU (Coordinadora de Centros de Ensino Superior de la Companhia de Jesus en Espanha), foi fundado há mais de 15 anos, precisamente porque os responsáveis pelo ensino superior da Companhia de Jesus em Espanha consideraram que a Ética é fundamental na formação formal e informal do ser humano, especificamente na formação que visa a actividade profissional. Ou seja, muito antes de a crise que o mundo atravessa vir à superfície, aqueles responsáveis aperceberam-se de que a Ética é fundamental para o ser humano e organizaram a sua leccionação nas suas instituições de ensino superior. Como diz Adela Cortina num dos seus recentes livros, Para que sirve la Ética? (Barcelona: Paidós, 2013), a ética é fundamental pelo menos por duas razões: porque faz parte da estrutura do seu humano, e porque é inteligente tirar o melhor partido dessa dimensão, uma vez que sem ela não há justiça nem felicidade. Como a autora diz, numa linguagem provocadora: é mais barato ser ético do que não ser; sem confiança, virtude ética, a vida torna-se impossível. E ao olhar para o mundo, tem de se concordar com a grande filósofa espanhola. Ou seja os responsáveis da Companhia de Jesus anteciparam-se na procura de caminhos que evitem as dificuldades que hoje são bem patentes.
Esta consciência levou à decisão de criar unidades curriculares de Ética em todas as licenciaturas, mestrados e doutoramentos ministrados nas Instituições de Ensino Superior da Companhia de Jesus em Espanha, universidades, como Deusto, Comillas e Loyola Andaluzia, e outras instituições de ensino superior, como ESADE (Escuela Superior de Administración y Dirección de Empresas - http://www.esade.edu/web/eng) e IQS (Institut Quimic de Sarrià - http://www.iqs.edu/es/), em Barcelona; INEA (Escuela Técnica de Ingeniería Agrícola - http://www.inea.org/), em Valladolid, entre outras.
O grupo inicialmente trabalhou a formação dos professores de Ética de cada centro (são os professores do chamado Círculo 2; o Círculo 1 é composto pelos coordenadores dos diversos centros) e dos professores das outras unidades curriculares dos diversos cursos, designado Círculo 3, porque não há actividade docente nem unidades curriculares axiologicamente neutras.
Para além desta actividade, o Grupo tem publicado ao longo dos anos vários volumes de ética das profissões. O Primeiro volume da colecção (Ética de las Profesiones. Desclée De Brouwer) tem por título Temas Básicos de Ética e o segundo, Ética General de las Profesiones, de que há uma tradução brasileira. Os restantes volumes tratam da ética de profissões em áreas específicas, como: a ética da responsabilidade empresarial, do trabalho social, de enfermagem, da ajuda humanitária, dos tradutores, das finanças, da economia, da vida pública, do turismo, dos professores, das profissões jurídicas, etc.
No nosso país esta área da ética das profissões tem sido pouco trabalhada e certas instâncias reagem com estranheza às propostas da sua introdução nos Curricula. A razão deste modo de proceder nem sempre é claro. Às vezes parece que esta reacção se deve ao facto de se considerar que a Ética não é ensinável, ou se tem ou não se tem; outras vezes parece que a reacção contra a introdução da Ética nos cursos resulta de se considerar que a ética é uma questão meramente pessoal e, consequentemente, cada um tem a sua. Ora a Ética é o conjunto de valores, princípios e normas que permite a convivência humana, pelo que não é meramente individual, mas tem uma dimensão social, e é indispensável à vida em comum. Isto torna-se particularmente evidente quando nos deparamos com situações de que ela está ausente. Há, contudo, alguns sinais de que pouco a pouco se vai descobrindo a necessidade de incluir nos cursos o ensino da Ética, o que permite acalentar alguma esperança de que a sua leccionação se vá generalizando, para bem de cada um e da sociedade em geral.

José Henrique Silveira de Brito (Representante da FacFil no Grupo UNIJES)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O que os alunos dizem da obra "A República" de Platão

No contexto da elaboração de um trabalho escrito, no âmbito da Unidade Curricular de Filosofia Antiga, centrado no Livro VII d'A República de Platão, recolhemos as seguintes impressões e opiniões de um grupo de alunos:
> "Se é verdade que muitas pessoas  ainda vivem num mundo que não passa de um teatro de sombras, não querem dar o passo para a Verdade, talvez por medo, talvez por ignorância. (...) O objectivo de Platão não é dizer que a natureza das sombras é triste, mas que ela é escura e triste em comparação com a claridade do mundo das ideias." (João Eduardo M Bastos)
> "O filósofo tem como missão guardar e cuidar dos outros (...); deve fazer com que os outros  tenham uma vida melhor" (Pedro J Antunes)
> "A alegoria [da caverna] também me ajuda no sentido de que o que pensamos saber, deve ser visto com cuidado, (...) devemos ter a capacidade de largarmos os grilhões e irmos ao encontro do desconhecido" (Daniel A Rodrigues)  
> "Para Manuel Velazquez, sair da caverna é procurar encontrar fundamentos que sejam racionalmente justificados" (Lara Marli S Tavares)
> "A educação tem como objectivo tornar os jovens bons líderes, administradores e governantes, homens de Estado e não demagogos; cultivar o amor desinteressado à ciência; transformar o conhecimento em sabedoria prática. Uma missão reformadora.
O principal intuito será mobilizar a consciência para a importância e beleza do mundo inteligível, que é aquele que é real, que retrata as ideias e a essência em oposição ao mundo sensível ao qual muitas vezes somos chamados, o mundo do irreal, das cópias sensíveis e aparentes." (Jorge Miguel F. Rodrigues)
> "Em conclusão, Platão dá-nos uma utopia soberana de um modelo político utópico mas também inspirador em vários aspectos. Sobretudo, no facto de se basear no bem comum e no serviço, e de certo modo inspirou muitas tendências na história. No entanto, o mais importante a meu ver, é a alegoria da caverna onde Platão nos oferece o núcleo do seu pensamento e filosofia. Sem esta metáfora é impossível entender Platão e a sua teoria do mundo sensível e inteligível, que certamente marcou a história da civilização ocidental para sempre." (João Moreira)   
> "Os políticos serão bons políticos se conseguirem ter uma mente aberta ao conhecimento; terão de ser filósofos para executarem as ideias de um homem livre" .(Paulo António M Pereira)
> "Se transpusermos a alegoria [da caverna] para os nossos dias, damos conta que os prisioneiros somos nós, , que vemos e acreditamos apenas e só em imagens criadas pela cultura, conceitos e informações que recebemos." (...) Verdadeiramente só conhecemos a realidade quando nos libertamos dessas influências, quando saímos da caverna." (Francisco Jorge P Costa)   
> "O significado desta alegoria [da caverna] é no sentido de que os homens são, neste mundo, escravos dos seus sentidos , ou seja, na obscuridade do mundo da matéria em perpétuo devir, não apreendem senão sombras ou vagos reflexos. Porém, os modelos destas sombras, a fonte luminosa destes reflexos permanecem a tal ponto desconhecidas para eles, que não suspeitam sequer da sua existência." (Alexandre G Cardoso)
> "Como o filósofo percebe o mundo de maneira diferente, é geralmente considerado louco e que vive na lua, mas na verdade ele é o único que conhece a realidade da existência e das formas perfeitas, segundo Platão." (Ricardo Luís R Martins
> "Através de um diálogo interessante e interpelativo, fomos convidados a conhecer o modo de vida filosófico platónico que, embora se apresente, por vezes, utópico e idealista, nos leva a questionar sobre a verdadeira essência da realidade e da própria natureza humana. Embora idealista, não deixa de ser um ponto de partida interessante para questionar o presente e levantarmos dúvidas que, ao homem, parecem ser eternas". (Isabel Pacheco)
> "O conhecimento é exactamente uma conquista que só se pode fazer com esforço e vontade de espírito de cada um, de forma lenta e gradual até atingir a plenitude, ou seja, o mundo inteligível ou das Ideias, abandonando o mundo sensível." (João Pereira)
> "Platão nega que o plano de estudos seja apenas uma acumulação de conhecimentos da alma. É, antes, uma conversão  ("voltar da alma"), em que a alma dirige a atenção para a elevação até à realidade. [...] Platão defende uma educação mais centrada em métodos de análise do que em factos. O processo de aprendizagem é natural no seu desenvolvimento" (Miguel António S Bacalhau).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Filosofia para entender o mundo


Todos temos necessidade de pensar para nos compreendermos a nós e ao mundo que nos rodeia, sobretudo nos tempos conturbados em que vivemos. No passado como no presente, é normal as pessoas se interrogarem alguma vez sobre o que é a filosofia, o que é um filósofo, para que serve a filosofia e qual  sua função na história e sobretudo na actualidade.

Sobretudo os mais jovens, congenialmente mais inquiridores, têm a tendência natural para uma atitude filosófica, que precisa de ser estimulada. Nesse sentido, ao longo dos tempos, tem sido publicadas diversas obras de introdução à Filosofia, promovendo o gosto pela Filosofia, desenvolvendo um espírito filosófico e potenciando um pensamento aberto à problematização.  Pensar filosoficamente está ao alcance de todos? Ousa pensar, é o desafio!

É justamente neste contexto que se insere o recente e breve volume colectivo, intitulado Cartas a jóvenes filósofas y filósofos (Madrid, Continta Me Tienes, 2014). Dez pensadores ou filósofos, oriundos de diferentes correntes de pensamento (do francés Jean-Luc Nancy, passando por Miriam Solá e Lucrecia Masson, até ao filósofo da ciência Fernando Broncano e ao fenomenólogo belga Marc Richir, entre outros) dirigem cartas ou lições problematizadoras a destinatários jovens, discípulos imaginários, sobre temáticas bem diversas e actuais.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Por uma fé em Deus e nos homens

Neste texto, Andreas Lind, antigo aluno da licenciatura em Filosofia da FacFil, revisita a questão sempre actual da relação entre a Filosofia e a Teologia, a Razão e a Fé. O pretexto para esta incursão é o discurso do Papa Francisco no Parlamento Europeu e os frescos de Rafael representando Filósofos e Teólogos num cenário convidativo ao diálogo.

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No seu rico e denso discurso recentemente pronunciado no Parlamento Europeu, entre tantas imagens sugestivas, o Papa Francisco levou-nos a admirar a célebre "Escola de Atenas" de Rafael. Nela, vislumbramos Platão e Aristóteles, circundados por toda uma vasta tradição de filósofos pagãos. Os dois, bem ao centro, caminham dialogando um com o outro. Enquanto que Platão aponta para o céu, o seu discípulo estende a mão para baixo. Deste modo, revela-se, segundo o Santo Padre, uma conexão inseparável entre o céu e a terra, que deveria hoje preservar-se: a abertura a Deus deve estar ligada ao cuidado para com as situações concretas que o homem vive.

Na "Stanza della Segnatura" dos museus do Vaticano, onde se encontra a "Escola de Atenas", reparamos que Rafael pintou, à sua frente, outro fresco, no qual teólogos cristãos discutem sobre a presença real de Cristo na Eucaristia; no fundo, sobre a presença de Deus no mundo. Assim, o pintor renascentista faz-nos recordar como a filosofia helenista foi acolhida pela tradição teológica cristã.
Trata-se de uma atitude de abertura para com uma tradição pagã, que hoje parece já não nos surpreender mais. Com efeito, para muitas das pessoas que visitam aquela "Stanza" no Vaticano, e se deixam ali ficar a admirar a presença de São Tomás, de Santo Agostinho, de Santo Ambrósio, ali bem próximos de Platão e de Aristóteles, até lhes parece normal. Contudo, tal cenário não foi sempre evidente. Nos primórdios da Igreja, muito se discutiu, de facto, sobre o valor de uma tradição filosófica, como a grega, cujas raízes não se fundavam na Revelação bíblica. Porque não ficar só com a sagrada Escritura? Não basta o que disseram os profetas de Israel e os apóstolos a quem Cristo confiou a Sua Igreja? Para quê valorizar a filosofia pagã dos gregos?
Trata-se realmente de uma opção, “fundamental” e “primordial” segundo Ratzinger, que o cristianismo estabeleceu pelo "Logos". No contexto cultural próprio do antigo império romano, a religião era vista como uma "religio pubblica" na qual se celebravam mitos sem correspondência com uma verdade histórica. Assim, acabou-se por permitir uma prática religiosa devocional que se separava da filosofia e da razão, a partir da qual o homem procurava chegar à verdade.
Os cristãos optaram, seguindo a linha argumentativa de Ratzinger, pela filosofia, pelo "Logos", em detrimento do "mythos", veemente criticado por uma tradição filosófica pagã, à qual os cristãos de certa forma aderiram. É certo que, na mesma "Stanza della Segnatura", Rafael também pintou Apolo e Aria, valorizando assim a poesia na qual o mito se expressa. Sim, esta “opção fundamental” pelo "Logos" não foi tomada num sentido exclusivista. Trata-se, essencialmente, de não separar a devoção religiosa pública e pessoal da verdade que podemos compreender enquanto homens.
Neste sentido, parece-me que devemos, hoje, fazer memória desta opção primordial, pela qual muitos dos primeiros cristãos, ao se recusarem a aceitar as práticas de uma devoção religiosa que, não sendo verdadeira, seria apenas idolatria, acabaram por pagar o preço do martírio, oferecendo a própria vida segundo as exigências da sua fé.
Creio que recordar esta opção, não só nos leva a ter presente a radicalidade da entrega de quem crê, mas, sobretudo, a ganhar consciência de que o crente num Deus, cujo Espírito penetra toda a realidade criada, tende a acolher o mundo e os outros, oferecendo a vida pela sua salvação.
Realmente, acreditar que os conteúdos da fé cristã são universalmente verdadeiros implica que sejam compreensíveis e relevantes para todos os homens. Ou seja, Platão e Aristóteles, na sua procura sincera da verdade, do Bem, das coisas eternas, no fundo, procuravam Deus e, nesse caminho, chegaram muito longe, através da razão humana, a qual participa no "Logos" divino. Por isso mesmo, São Justino, na sua apologia do cristianismo, enviada ao Imperador romano António Pio, chegou mesmo a apelidar Sócrates de “cristão”, na medida em que o filósofo grego terá sido um homem que viveu segundo o Logos. De facto, o próprio São Paulo diz que “Deus se manifestou a eles. Desde a criação do mundo, Sua condição invisível, Seu poder e divindades eternos, se tornam acessíveis à razão para as criaturas” (Rm 1, 19-20). E, na mesma epístola aos Romanos, o apóstolo dos gentios acrescenta: “Quando pagãos, que não têm a lei, cumprem espontaneamente o que a lei exige, não tendo a lei, eles são sua lei, já que demonstram levar as exigências da lei gravadas no coração” (Rm 2, 14).
Trata-se, então, de uma fé que acredita nos homens e na sua capacidade de chegar à verdade; portanto, de uma fé que não se separa do mundo. Uma fé que não pode ser uma mera devoção privada, reduzida ao sentimento pessoal e subjetivo do crente: este deve ser capaz de a anunciar e de a tornar credível perante o mundo. Estamos, então, perante um credo que o mundo possa compreender e que seja capaz de viver. Um credo que seja relevante às aspirações do mundo, que respeite o homem e que vá ao encontro das suas inquietações. Sem dúvida, uma atitude de abertura e diálogo em relação a tradições diferentes. Realmente, acreditar que todos os homens, independentemente das tradições religiosas ou filosóficas a que pertençam, participam no "Logos" divino, implica esta atitude dialogante com o mundo. Não se trata apenas de acreditar em Deus, mas de viver uma fé que confia no mundo e nos homens, tal como São Justino confiou em Sócrates e respeitou a filosofia grega.
Regressando ao discurso do Papa Francisco no Parlamento Europeu, podemos compreender agora o encorajamento do Santo Padre no sentido de retornarmos ao espírito dos fundadores da União Europeia, baseado na capacidade de trabalhar em conjunto, e de superar as divisões existentes, na construção de uma paz duradoira. Sem esquecer, como tenho vindo a dizer, que esta atitude de abertura e diálogo pressupõe o respeito absoluto pela pessoa humana; o respeito, pode dizer-se ‘sagrado’, da sua dignidade e dos seus direitos inalienáveis.

(Texto originalmente publicado no blog essejotanet)

Andreas Lind, sj | 10.01.2015

sábado, 17 de janeiro de 2015

Relevância da mundividência satírica


De facto, não é possível compreender a literatura ocidental sem a presença da SÁTIRA, desde a Antiguidade até aos nossos dias. Nas suas variadíssimas modalidades de expressão, o modo satírico é uma forma de olhar e de dizer o mundo e o homem. É uma forma de empenhamento e de intervenção social, entre outras, de exercício da função pública do escritor, parafraseando Edward Said.

Tantas vezes com contundência certeira e não menor dose de utopia, no processo de construção de um mundo melhor. Mas sobretudo como exercício de liberdade (com respeito pelo outro) e demonstração de humanidade. Afinal, rir é próprio do homem (Aristóteles). "Ridendo castigat mores"...

Neste contexto, vale a pena ler o recente texto de Alberto Manguel, no suplemento "Babélia" do jornal madrinelo El País
http://cultura.elpais.com/cultura/2015/01/14/babelia/1421260399_642738.html

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Gonçalo M. Tavares, "Uma Viagem à Índia": une parodie postmoderne du désenchantement

Artigo publicado pelo docente Cândido Oliveira Martins na revista Les Langues Néo-Latines, Paris, nº 369 (2014), pp. 33-46 [ISSN: 0814-7570]

Resumo

A obra Uma Viagem à Índia (2010) de Gonçalo M. Tavares dialoga intertextualmente com certa tradição épico-narrativa ocidental, sobretudo renovando o género, à luz de uma radical inventividade e de uma singular apropriação de Os Lusíadas de Luís de Camões. Com essa relação dialógica, num misto de homenagem e de superação, e servindo-se do motivo de uma alegórica e introvertida viagem à Índia, constrói uma contra-epopeia deceptiva, imbuída da melancolia dos tempos pós-modernos.

Outras publicações recentes do corpo docente.

Juazeiro do Norte e a religiosidade popular

Juazeiro do Norte - Ceará/Brasil, 17-21.Nov.2014

O IV Simpósio dedicado ao “fenómeno Pe. Cícero”, em Juazeiro do Norte (Ceará/Brasil), propôs uma reflexão mais aprofundada sobre o significado que envolve a personagem à volta da qual tudo se aglutina na progressiva cidade de Juazeiro do Norte, a nível social, político, económico, intelectual, religioso e cultural. A localidade constituiu-se como polo de irradiação e de atracção cultural, social e religiosa, bem como polo de desenvolvimento dos sertões nordestinos brasileiros. Anualmente, entre dois e três milhões de romeiros visitam Juazeiro, motivados pelo culto ao Padrinho Pe. Cícero (“Padim Pade Ciço”).

Ao pensar o fenómeno Pe. Cícero em termos nacionais e globais, que era o objectivo central proposto para este evento, de imediato perspectivei a minha participação para o tema da religiosidade popular. Predominaram as apresentações de estudos de carácter antropológico, sociológico e histórico, em geral ligadas a trabalhos de investigação; o número e a qualidade de estudos científicos já realizados não deixam indiferente a quem procurar compreender o significado religioso, cultural e social de todo este processo que teve início nas últimas décadas do séc. XIX. Muitas outras comunicações, pósteres e oficinas, preparadas por grupos de trabalho, evidenciaram a vitalidade e o interesse académico na continuidade desta investigação, com o envolvimento e investimento da mais antiga instituição universitária da região, a Universidade Regional do Cariri (URCA).

O contributo da reflexão que apresentei, inspirada na filosofia da religião dos últimos séculos em Portugal, foi orientado pelo tema assim enunciado: Pensar e viver o sagrado nos dias de hoje? No contexto da pergunta sobre o sentido/significado do sagrado nos dias de hoje, a ideia orientadora da palestra foi a seguinte: “A vitalidade das manifestações da religiosidade popular, como a de Juazeiro do Norte, constitui um dos sinais mais autênticos e mobilizadores da renovação religiosa que hoje vivemos, anunciando a transformação radical da civilização actual, e é marcada mais pela experiência espiritual individual e colectiva do que pelo cumprimento de directivas oficiais das instituições religiosas.” Acompanhando o processo de valorização científica e de sacralização da cultura, e recorrendo aos contributos dos filósofos e literatos mais significativos que experienciaram as mudanças históricas do Portugal contemporâneo, foi possível fazer uma aproximação mais intensa à essência do sagrado, bem mais próxima da religiosidade popular do que das religiões oficiais. Sem deixar, no entanto, de orientar para a questão em aberto: Na perspectiva do futuro, será esta irrupção do sagrado a “medida” de qualidade de vida e de autenticidade do “humano” que vai devolver a esperança renovada de uma humanidade mais justa e mais solidária?

Duas afirmações sobre a concepção da religião e da natureza intrinsecamente religiosa do ser humano, que estiveram presentes na reflexão desenvolvida na palestra: - Eduardo Lourenço afirmou recentemente (2014) que a “dimensão «religiosa» faz parte daquilo que é a definição do homem”, na linha das conclusões defendidas por Georg Simmel, em finais do séc. XIX, e que desenvolve mais tarde na obra Die Religion (1906): “O homem é naturalmente religioso. A religiosidade é um modo de ser do homem, quer ela tenha, agora, um conteúdo, ou não, quer esta característica possa ser incorporada ou não, numa fé. Assim como é inteligente, erótico, justo ou belo, assim é religioso: o ser religioso, portanto, é uma maneira primária, absolutamente fundamental, do ser.”

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A Filosofia da Religião, por terras brasileiras

Folder do Simpósio

O IV Simpósio Luso-Brasileiro de Filosofia da Religião e Ciências da Religião realizou-se em São Paulo, na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), de 03 a 05 de Novembro de 2014. Foi organizado pelo Programa Pós-Graduado em Ciências da Religião – Grupo de Pesquisa Pós-Religare: Pós-Modernidade e Religião, sob a coordenação do Prof. Dr. José J. Queiroz, e em colaboração com o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Religião, da Faculdade de Filosofia de Braga da UCP.
Os Simpósios anteriores: I - 2009, Faculdade de Filosofia de Braga, sobre o tema As dimensões da experiência religiosa na modernidade e pós-modernidade; II - 2010, PUC-SP, sobre A religião na modernidade e pós-modernidade: Interfaces, novos discursos e linguagens; III - 2012, Braga, com o tema Ética e religião na sociedade e cultura pós-secular.
O tema do Simpósio – Religião, Política, Laicidade: Desafios contemporâneos – foi trabalhado ao longo dos três dias, em quatro mesas temáticas, cada uma com intervenções de um investigador português e de um investigador brasileiro. Uma das tardes foi preenchida com cerca de 40 apresentações em torno das mesas temáticas, na sua maioria produzidas por alunos de programas de pós-graduação de diversas universidades e centros de investigação brasileiros.
Do programa de Filosofia da Religião da Faculdade de Filosofia, participámos três professores: João Duque, Manuel Sumares e José Gama; do programa de Ciências da Religião da Universidade Lusófona, participou o professor Paulo Mendes Pinto. Como impressão geral, fica o testemunho de uma agradável colaboração, em óptimo ambiente de convívio e de acolhimento pessoal e académico, com excelente nível científico que pautou o intercâmbio e as animadas discussões que as palestras proporcionaram.
A minha palestra estava enquadrada no tema da mesa 2 -Os direitos humanos emergentes na relação entre Estado Laico e Religião, e apresentei-a sobre a seguinte temática: O estado laico e o direito de religião - A “questão religiosa” em Portugal, do Liberalismo à República. Deixo o resumo do texto que será publicado nos anais do simpósio:    

Os direitos humanos, consagrados no art. 18.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, têm uma longa e complexa história, que abordaremos brevemente numa primeira parte, com algumas referências ao desenvolvimento do projecto da modernidade e correspondente processo de secularização e de laicização, que conduziu ao questionamento do “regresso do sagrado” na pós-modernidade.
Numa segunda parte, analisaremos a chamada “questão religiosa” que polariza em Portugal a discussão política e a reflexão filosófica, na viragem do séc. XIX para o séc. XX, em torno das relações entre o Estado e a Igreja (católica), acompanhando a evolução da nova fase do liberalismo até à implantação da república em 1910. Dois pensadores se destacam, Sampaio Bruno e Basílio Teles, com aportações filosóficas importantes na clarificação do direito de religião na sociedade democrática contemporânea e nas suas multifacetadas manifestações e interrogações, próprias de uma sociedade multi-religiosa e multicultural. A cidadania de diferenças não pode prescindir do diálogo crítico instaurador de futuro e da autocrítica na sua relação com o presente e com o passado. A religião não abdica do seu direito, ainda que ao lado da não-religião, e em luta contra o indiferentismo…

Os desafios contemporâneos que se colocam na investigação da Filosofia da Religião são suficientemente aliciantes para alimentarem a reflexão que a política e a laicidade motivaram nestes dias, e para continuarem a desafiar em futuros encontrosos complexos contornos humanos da experiência religiosa. O próximo encontro de colaboração entre a FacFil e a PUC-SP, ou o V Simpósio Luso-Brasileiro, ficou agendado para Janeiro de 2016, em Braga, sobre o tema Racionalismos, afetividades e experiências religiosas na contemporaneidade. Fica a sugestão e, desde já, o convite para uma participação ativa e criativa na reflexão sobre esta dimensão de transcendência inerente ao ser humano.
José Gama

Programa do Simpósio

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Slavoj Žižek: pensar o atentado ao "Charlie Hebdo"


A filosofia contemporânea não se alheia do que acontece hoje à nossa volta. Antes mostra a coragem de pensar "a quente" os acontecimentos enquanto problemas, a partir de várias perspectivas. 

Disso é exemplo o polígrafo e às vezes polémico Slavoj Žižek, ao refectir sobre o recente atentado em França: "quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso."

Vale a pena ler, criticamente, o depoimento de Žižek sobre este assunto da actualidade, enviado por ele para o Blog da editora brasileira Boitempo: 

domingo, 11 de janeiro de 2015

Sucesso profissional na área da Filosofia e das Humanidades


Num frequente discurso de ideias-feitas e não confirmado pela realidade, tem-se repetido que os licenciados na área das Humanidades (como a Filosofia) não têm um bom futuro profissional.

Ora, opostamente, vamos verificando que grandes empresas privilegiam a aquisição de trabalhadores com formação na área das Humanidades. E há mesmo estudos que insistem numa ideia importante – a de que a formação nesta área é um investimento com retorno assegurado. 

Vale a pena reflectir sobre a questão, a partir do artigo publicado na influente revista Forbes:

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A emulação e a pedagogia da Companhia de Jesus

Adicionar legenda
Artigo publicado, em duas partes, pelo docente José Manuel Martins Lopes sobre a importância e o significado da emulação na actual pedagogia dos jesuítas - "A emulação e a pedagogia da Companhia de Jesus - I" in «Brotéria» 179-2/3 (2014) 155-173; - II in «Brotéria» 179-4 (2014) 253-267.

Resumo

A emulação é uma estratégia pedagógica que muitos e bons resultados deu ao longo da História da pedagogia. Os jesuítas, percebendo as suas vantagens e tendo em conta os seus aspetos mais ambíguos, institucionalizaram-na e consagraram-na na sua prática pedagógica, sobretudo através das suas Constituições da Companhia de Jesus (SIL 1997) e da Ratio Studiorum (RS 2009).
É verdade que a emulação, se mal gerida, pode contribuir para uma competitividade perniciosa e levar à de-formação e des-educação de jovens que estão num processo de crescimento como pessoas e futuros cidadãos responsáveis pela vida da Polis. Todavia, a emulação, se bem orientada, tem virtualidades que não podem deixar indiferente um educador. Os jesuítas, na sua pedagogia, souberam aproveitar dela todas as suas potencialidades com o objetivo de educarem o aluno na dupla vertente da virtus et litterae. A santa emulação é um caminho seguro para uma sã e edificante aprendizagem.
Este trabalho visa re-propor um conceito e instrumento pedagógico, o de emulação, esquecido, mas meritório de ser re-integrado no panorama pedagógico contemporâneo.

Palavras-chave: emulação; competitividade; competição; disputas; magis; virtude.

Outras publicações recentes do corpo docente.

Um possível sentido para a vida – uma proposta educativa

 Artigo publicado pelo docente José Manuel Martins Lopes em dois fascículos da Revista "Brotéria", sobre a questão fundamental da educação, a procura e o encontro de um sentido para a vida - Um possível sentido para a vida – uma proposta educativa – I, in «Brotéria» 177-2/3 (2013) 155-170; II, in «Brotéria» 177-4 (2013) 275-292.

Resumo

            Todo o ser humano, no seu processo de personalização, procura algo que está na base e é o pressuposto da sua motivação de viver: o sentido para a sua vida. Todavia, este sentido exige da parte de todo o ser humano uma dupla atitude: procura e encontro. Quer a procura, quer o encontro, requerem que a pessoa se torne sujeito ativo da construção da sua vida. A educação é um tesouro que nos pode ajudar a ter a atitude correta perante a vida, porque nos possibilita o abrir de horizontes necessários para nos irmos aproximando do ser, do sentido da nossa vida.
            A palavra educação, hoje em dia, está muito na moda. Toda a gente, por tudo e por nada, fala de educação e de muitas outras expressões que com ela fazem crer em erudição, em favor de quem as utiliza... Nós, neste trabalho, procurámos associar a palavra educação àquilo a que julgamos dever estar mais ligada: ao sentido da nossa vida. As nossas escolas limitam-se a ser antros de ciência, de saber, tantas vezes desfasadas da realidade, e esqueceram-se de algo tão essencial, como o ser e a sabedoria. Por isso, muitos alunos que terminam a sua formação académica são pessoas “mal-educadas” e destruidoras de humanidade, o contrário, precisamente, para o qual deve apontar o ato de educar. Esta constatação é evidente desde os gregos clássicos. Kant reiterou-o. Outros filósofos seguiram também nesta linha. A Igreja nunca o esqueceu.


Palavras-chave: educação; arte e educação; educação e verdade; educação e humanização; educação e liberdade de ensinar e de aprender; educação e compromisso; educação e elevação moral.

O desejo, esse desconhecido...

Artigo publicado pelo docente José Manuel Martins Lopes sobre a natureza do desejo na sua raiz antropológica e finalidades soteriológicas – “O desejo, esse desconhecido…”, in GONÇALVES Miguel; Carlos Bizarro MORAIS; José Manuel Martins LOPES (Orgs.), Sexualidade e educação para a felicidade, Colecção “Estudos Sociais”, Publicações da Faculdade de Filosofia - Universidade Católica Portuguesa, Braga, 2010, pp. 171-195.

Resumo

O desejo acompanha-nos, faz-nos felizes, mas também nos faz sofrer, liberta-nos, mas também nos oprime, pacifica-nos, mas também nos desestabiliza, sacia-nos, mas também nos torna famintos...
Que é o desejo? Como devemos lidar com ele? O desejo pode ajudar o homem a crescer como pessoa?
Este trabalho tenta responder a estas perguntas. Dividimo-lo em duas partes: a primeira procura encontrar uma possível identidade do desejo; a segunda, mais teológica, faz um estudo do desejo na Bíblia.
O problema do desejo estará sempre ligado a uma perspectiva antropológica. A ideia de homem condicionará, necessariamente, a perspectiva do olhar que cada um terá sobre o desejo.
O desejo poderá ser mais um motivo educativo para a redenção do homem ou, numa visão pessimista, um motivo para a sua perdição. Defendemos neste estudo que o desejo pode e deve ser um caminho para a salvação do homem, salvação esta que, para nós, passa, necessariamente, por um Deus Criador e Redentor.

Palavras-chave: Desejo, liberdade, educação do desejo, educação para a liberdade.

Outras publicações recentes do corpo docente.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Pensar o silêncio e a incomunicabilidade num romance de Lídia Jorge

A escritora Lídia Jorge (Algarve, 1946) é hoje, inquestionavelmente, uma voz singular e reconhecida no panorama da literatura portuguesa contemporânea. Comprovam-no a receptividade do público e da crítica; as repetidas edições das suas obras; as traduções para outras línguas; as teses e os ensaios académicos que se vão apresentando sobre os seus textos em vários países; os prémios nacionais e internacionais que têm distinguido a sua obra; e ainda os volumes monográficos que se debruçam sobre a sua criação literária – por exemplo, o dossiê temático na prestigiada revista norte-americana Portuguese Literary and Culture Studies, 2, 1999; ou o volume colectivo Para um Leitor Ignorado (Ensaios sobre a ficção de Lídia Jorge), Ana  Paula Ferreira (org,), Texto Editora, 2009.
Recentemente, Maria da Conceição da Silva Brandão apresentou-se em provas públicas de mestrado, na Universidade de Aveiro, com uma dissertação intitulada Formas de Silêncio em “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge. Apreciado muito positivamente pelo júri académico, esse trabalho vê-se agora publicado sob forma impressa, alargando assim o seu público leitor potencial.
Neste livro de Maria da Conceição da Silva Brandão, estamos perante um trabalho de análise literária que não esconde o empático entusiasmo perante a obra ficcional de Lídia Jorge. Centrando o seu discurso crítico no romance Combateremos a Sombra (2007), apresenta desde logo a qualidade do conhecimento e das relações pertinentes com outras obras da escritora. Sobretudo, revela a coragem de abordar um tema complexo, mas profundamente actual: a existência de uma gramática do silêncio na vida social contemporânea.
De facto, apoiada numa bibliografia teórico-crítica pertinente, este estudo de Maria da Conceição da Silva Brandão debruça-se, ao longo de alguns capítulos breves, sobre as várias “formas de silêncio” com que também se constroem (ou destroem) as relações humanas. O mencionado romance de Lídia Jorge proporciona uma reflexão sobre a dialéctica entre a escrita (ou a voz) e o silêncio contra a hipercultura da pressa e do ruído, típica de uma acelerada “cultura da comunicação”.
No passado como no presente, a literatura sempre se constituiu como uma forma ímpar e indispensável de dizer o indizível e de expressar o silêncio; e até de decifrar os silêncios legalizados pelas sociedades democráticas. Por outras palavras, a abordagem do tema em questão pressupõe o questionamento do tema da linguagem e da in-comunicabilidade – entre outros tópicos –, pois a palavra é, e sempre foi, uma forma de poder, com mais ou menos constrangimentos.
Ao mesmo tempo, num mundo doente de várias patologias, pode a verbalização, por exemplo, através da psicanálise, constituir uma forma de libertação terapêutica? No plano individual e colectivo, o conhecimento do mundo, a autognose e a própria busca de sentido para a existência humana são indissociáveis da palavra, da linguagem e da narrativa. Mesmo salvaguardando certos mistérios indecifráveis da mente humana; ou os excessos entre o mutismo e a verbosidade.

Como nos adverte Boaventura Sousa Santos, o retorno ao interior do ser humano, à redescoberta do indivíduo e à centralidade do mundo interior, pode ser visto como um dos traços da sociedade pós-moderna. Aliás, não será por acaso que certa narrativa literária actual volta a explorar diversos meandros do mundo labiríntico da psicologia humana. Por vezes, fá-lo com grande realismo e redescobrindo com isso dimensões trágicas da existência humana. Mas essa é uma das potencialidades da palavra literária – iluminar as sombras e o obscuro, problematizar a verdade, saber quanto pesa a alma, combater a inevitabilidade do silenciamento.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Dia Mundial da Filosofia 2014 na FacFil

Comemorado com 350 alunos do Ensino Secundário

Um dos sinais que melhor atesta o interesse que esta jornada despertou é, certamente, a expressão escrita das vivências, dos sentimentos, das curiosidades experimentadas ao longo do evento. Por isso, tomamos a liberdade de as transcrever para o “corpo” deste blog, para mais fácil acesso do internauta.

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Juliana Sá:
Sou aluna do Instituto Nun'Alvres e, na minha opinião, a comemoração do Dia Mundial da Filosofia foi importante por várias razões.Primeiro, foi importante a forma como abordámos questões que nos inquietam como cidadãos do Mundo e estudantes de Filosofia de forma divertida e criativa. Mas, também foi importante porque tivemos a oportunidade de compreender melhor o que é a vida académica que, dentro de pouco tempo será a nossa realidade e, por outro lado, entender o que é estudar na Faculdade de Filosofia. Por fim, gostaria de agradecer a amabilidade com que fomos recebidos. (Juliana Sá, Instituto Nun'Alvres, 11ºB - 4 de dezembro de 2014 às 19:57)


Prof. Artur Galvão prendeu a atenção dos jovens com excelente palestra

Ana Moreira: 
Olá, sou aluna do Instituto Nun'Alvres e estou aqui para dizer que gostei bastante da comemoração do Dia Mundial da Filosofia na vossa Faculdade. Deu para olhar para a Filosofia de um outro modo, mais divertido e rotineiro, como algo que acontece todos os dias, e nós nem nos apercebemos. Por outro lado, entramos, também, na realidade de uma universidade, visto que esse poderá ser o nosso futuro muito em breve. Foi uma experiência muito importante e um tempo muito bem passado, de que gostei muito. Agradeço a disponibilidade e a amabilidade no nosso acolhimento. (Ana Moreira, Instituto Nun'Alvres 11ºB - 11 de dezembro de 2014, de 2014 às 21:53)

Os alunos da Oficina - Escola Profissional do INA foram convidados pela Faculdade
de Filosofia da Univ. Católica Portuguesa (Braga) para realizar a cobertura audiovisual
do Dia Mundial da Filosofia organizado pela referida Faculdade.

Notícia da Jornada no blog da Biblioteca Geral do Instituto Nun'Alvres (Colégio das Caldinhas) - ver blog neste link

Drª Fernanda Paula Costa: 
«... Posso dizer-te que o encontro foi um sucesso e fez furor. A turma que eu levei e com quem tive aulas hoje à tarde, fartaram-se de fazer elogios a tudo o que hoje de manhã aconteceu. Mais, houve houve até uma aluna que veio pessoalmente ter comigo no final da aula e que me disse que ficou particularmente tocada com  o facto de ponderar vir a estudar filosofia... achei o máximo. Parece-me que, tal como esta aluna, muitos outros se terão sentido tocados, ainda que não o tenham partilhado tão diretamente. Penso que iniciativas como esta podem abrir as portas da Faculdade, de novo, à Fiosofia.» (Professora de Filosofia do INA | email enviado no dia 20.11.2014).


Sara Silva deixou um novo comentário na sua mensagem "Dia Mundial da Filosofia 2014 na FacFil": 
Quinta-feira, dia 20 de Novembro, em comemoração do Dia Mundial da Filosofia, as turmas do 11º ano do INA (Colégio das Caldinhas) foram à Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga. Uma vez lá chegados, começámos por nos dirigir à Aula Magna da Faculdade de Filosofia, onde fomos recebidos por professores e alunos desta Faculdade da UCP, ficando a conhecer mais acerca deste ambiente académico. 
Recebemos informações sobre as saídas profissionais, os custos dos cursos e sobre as instalações e o funcionamento da Universidade. Os diferentes discursos, que tiveram lugar na Aula Magna, incidiram sobre as temáticas da liberdade e da importância da Filosofia. Foram abordados temas, que inquietam a maioria dos jovens, de forma apelativa, divertida e criativa. O Doutor Artur Galvão fez uma intervenção de Excelência neste domínio. Na parte final, tivemos oportunidade de ouvir alguns testemunhos de alunos e professores sobre o que é ser estudante de Filosofia. 
Tivemos ainda direito a uma visita guiada às instalações da Universidade, dando especial relevo à biblioteca. Nesta pudemos encontrar obras recentes e antigas, enciclopédias, dicionários, livros de Filosofia e de Teologia. Visitámos ainda o bar da Faculdade e o Centro Académico de Braga (CAB), que é muito semelhante à pastoral do nosso colégio, pois também segue a espiritualidade Inaciana. No final da manhã, voltámos ao Colégio com várias lembranças oferecidas pelos organizadores do evento. Esta visita foi muito importante por várias razões, pois adquirimos vários conhecimentos e uma nova perspetiva relativamente ao valor, interesse e importância da Filosofia. 
Quem sabe se algum de nós poderá vir a escolher estudar Filosofia nesta Faculdade! (11ºB, INA – Colégio das Caldinhas).
Bloco Principal (mais recente) da Faculdade de Filosofia

Entrada para a Aula Magna da Faculdade de Filosofia

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Riscos tanatológicos da arte contemporânea

Artigo publicado pelo docente da FacFil, Carlos Morais, sobre o tema da relação entre a arte e a morte. Um tema clássico da estética e da teoria da arte, mas que adquire novos contornos e novas interrogações na contemporaneidade (cf. referência completa do artigo).

Resumo:

Não passa despercebido a muitos pensadores e artistas o ambiente soturno, lúgubre e particularmente negativista que tem caracterizado um certo mundo da arte contemporânea, bem como o da correspondente reflexão estético-filosófica. Como se, estranhamente, a experiência estética, outrora fundada sob o signo da beleza, da tonificação, da gratuidade da presença luminosa do sensível se transformasse em lugar de ausência, fragmentação, irrisão, enfim, obscura vivência tanatológica.
Dos diversos traços que poderiam ilustrar esta atmosfera da arte contemporânea, seguiremos os três eixos temáticos que consideramos centrais: a recusa da representação, o formalismo e o informalismo. É verdade que estes três tópicos são apontados, à primeira vista, como fatores potenciadores do risco que ameaça a arte e experiência estética de declinar num iminente processo de denegação trágica e final. Porém – e este é o principal objetivo deste trabalho – é necessário aprender a discernir o alcance dessas opções da arte contemporânea, e perscrutar o que emerge das suas respetivas tensões, pois nem toda a rutura significa morte, nem toda a morte significa perda. Para tal, propomos como guia deste percurso os textos de Mikel Dufrenne, sempre abertos ao desafio da novidade, mesmo se difícil e por vezes incerta.

Palavras-chave: Morte da arte. Representação. Formalismo. Informalismo. Natureza.